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Certa noite, pedi desculpa pelo incómodo e saí de casa optimista. Acontece que tinha lido o horóscopo da Maya e estava no meu dia da semana. Trata-se da taróloga que mais confio, entre as que mostram as mamas em revistas para pagar os implantes.

“A equipa que ganha não se mexe” e por isso voltei a sair de casa bêbado, a táctica era o 4-4-2 losango, 4 cervejas, 4 caipirinhas e 2 gin-tónicos. O losango era só par enfeitar. No fundo da rua, cheia de corpos que não passam de rolos de cozinha Collogar tal é a eficácia que absorvem o líquido dos copos, ela se afigurava. E que figura era, com o corpo parcialmente tatuado deixou-me marcado com a tinta da obsessão. Aturdido, de pés gélidos, avancei em direcção da mini-saia e precipitei-me em fazer figura de urso, por sorte ela parecia gostar de animais e a conversa ao ritmo do álcool descambou para a selvajaria. Palavras que eram onomatopeias, frases de grunhidos e retórica própria dum ritual de acasalamento. Procurava que o encontro casual furtasse noutros premeditados, mas quando lhe pedia o contacto obtinha sempre a mesma resposta – vamos deixar esta noite ao acaso. O acaso sucedeu e para mal dos meus pecados, não terminou na bonita e gentil troca de fluídos nos lençóis da minha cama. Ao final da noite de expectativas frustradas, já dentro do táxi, chuta – não te dou o contacto, mas podes ficar com isto. Atirando-me as cuecas à cara.

Maya, Maya, Maya… De que serves tu? É este o meu dia da semana? Levar com tangas alheias na tromba? A libertinagem desvaneceu e fui para casa acalmar o ego, decidido a nunca mais confiar na Maya, uma senhora com unhas de gel, mamas de silicone e que prevê o futuro… Parece que tudo o que a Maya faz é falso, tirando os broxes pra subir na carreira.

No dia seguinte, enquanto curava a ressaca com banhos de café (que riqueza metafórica), contemplava o odor da bela tanga e heis-que reparo, que na etiqueta, havia um número de telemóvel escrito à mão, e a palavra «Liga-me!» Assim, com direito a exclamação. Lembro-me das palavras que me saíram da boca – Foda-se, não acredito nesta merda! Também exclamativa. Ela não teve tempo de escrever o número antes de as arremessar janela fora, significa que saiu de casa previamente com o número escrito nas cuecas, provavelmente com caneta Bic. Mas que mulher era esta?

Estava fascinado e de imediato pensei em ligar. Mas não sabia o que dizer, foi cobarde e resolvi mandar mensagem, prefiro esconder-me nos dedos do que na voz. Contudo, o que é que se diz a uma mulher que escreve o número de telemóvel nas cuecas? Com certeza algo subtil e romântico, do género – como é que é, queres ir dar cambalhotas? Talvez não seja a melhor opção. Depois de ponderar várias hipóteses e de ter elaborado uma lista de possíveis-SMS-a-enviar-para-mulheres-que-escrevem-números-de-telemóvel-nas-cuecas-e-as-atiram-a-desconhecidos; escrevi: encontrei umas cuecas, procuro o corpo.

Ao fim de 2 dias sem resposta, preparava-me para colocar um anúncio no Correio da Manhã, quando recebo uma mensagem com hora e local do encontro, despedindo-se com «beijo querido!» Era para essa mesmíssima noite e não queria desperdiçar a oportunidade. Queria perceber o que estava por detrás daquele gesto arrojado, e para facilitar esse entendimento, levei preservativos.

No local combinado, vejo os faróis do BMW X6 aproximar-se, vejo a porta abrir e vejo um homem entroncando, capaz de desfazer qualquer jogador de Ruby, caminhando na minha direcção. Logo aí percebi a asneira de aceitar o encontro num descampado da Serra de Sintra. Portanto, o que é que se passa aqui? Eu conheço uma mulher com a síndrome de atirar cuecas a estranhos, o marido controla-a escrevendo nelas o seu número de telemóvel e estou no meio da Serra com um tipo que parece que me vai partir os dentinhos todos. Mais aflito que uma grávida em trabalho de parto no meio do deserto, já preparado para levar um enxerto de porrada, ele vem e chuta – passa para cá os teus boxers!

Sim, para tirar os boxers é necessário tirar as calças, para as calças temos de nos descalçar, normalmente é assim que funciona. O que não é normal é estar nu, com os tomatinhos ao frio à noite no meio da Serra de Sintra com um tipo de dois metros a apontar-me uma arma. E pensar que tudo isto começou numa noite de bebedeira, num aparente e inofensivo galanteio. O que dirão os meus amigos, a minha família, mil e uma coisas me passam pela cabeça até à terrível – Será que me vai violar, estoirar os miolos e serei capa do Correio da Manhã? Com a manchete – Jovem que faleceu no decorrer de uma violação foi encontrado nu com umas cuecas na mão. Entrego-lhe os boxers, implorando para que me deixe ir, e quando penso que desta já me safei, ia o cabrão em direcção ao carro, volta-se para trás e… BANG! Sou atingido com esguichos de água na cara. Quase lhe agradeci por já estar nu da cintura para baixo.

Passado algum tempo descobri que a mulher que causou tudo isto trabalhava num bar na zona da Avenida da Liberdade e eu tinha de ir ao seu encontro, queria tirar tudo aquilo a limpo, apesar de já não ter esperanças de reaver os boxers. Ali estava ela, continuava gira e de saia, quando me viu nem corou. Explicou-me que estava numa fase muito monótona do relacionamento e tinha combinado com o marido fazer algo para apimentar a relação. Que pelos visto incluía boxers de estranhos. Então naquela noite decidiu escrever o número de telemóvel do marido antes de sair de casa. Disse-me:

– Não fiques triste…

– Triste? Triste? Houve lá ó minha vadia achas mesmo que depois de ter a minha vida em risco e depois do cabrão do teu marido me deixar cagado de medo no meio da serra nu da cintura para baixo que o meu sentimento é de tristeza?

– Calma, não precis…

– Cala-te puta! (aponto-lhe a arma à tromba) Esta merda é um assalto, passa para cá as tuas cuecas! Passem para cá as vossas cuecas todas!

De maneira que tenho em casa 36 cuecas em segunda mão para vender, alguém interessado?

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