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fila para a casa de banho

Parece-me que a nossa relação não tem futuro. Sinto que te conheci numa fila para a casa de banho onde a empatia da aflição ganha os contornos da amizade, mas depois de nos aliviarmos já nada nos une. Mesmo ao fim de 3 anos.

Padecemos do vazio comum à maioria das relações humanas, somos bengalas que se apoiam um ao outro em momentos de fragilidade, em lugar de sermos a capa que nos permite voar. O que nos unia era mais o medo de cair do que a vontade de voar. Aproximamos corações aflitos, porque sabes bem, o tempo corre, já não vamos para novos e nisto da incerteza… Deita-te aqui a meu lado tira essa roupa que disfarça os traços do teu corpo e ama-me antes que seja tarde demais.

Lembro-te bem, naquela fila para a casa de banho imunda, estavas à minha frente, como aliás sempre estiveste. Dizias que eu era pachorrento, que tinha falta de querer enquanto tu sempre desinibida avançavas sem medo.

«Ouvi dizer que fazes comédia. Faz me rir e deixo que me fodas.» Disseste. Eu, palhaço pobre nesta relação de humores e amores desdobrava-me num 8, sem nunca conseguir passar do 3. «De 1 a 10 dou-te 3! Não consegues fazer melhor? Tenta lá outra vez.» Desafiavas-me com o teu olhar e sorriso matreiro enquanto abrias mais um botão da blusa para que visse o que estava em jogo.

Por insistência da minha parvoíce e do teu gin, as gargalhadas soltaram-se até se tornarem em gemidos. «Gostaste? Sim, és mais engraçado na cama do que no palco… De 1 a 10 dou-te 2! Mas vem tentar outra vez e dá tudo o que tens a dar, não o deixes pra depois.»

Cínica, ousada e pérfida, amava-a por tudo o que os outros lhe achavam ser defeitos. A puta que conheci na fila da aflição deixou-me demasiadas vezes com o coração aflito. Eras o meu vício, só tu me conseguias acalmar a ressaca e eu só queria que alguém te receitasse como se fosses uma aspirina. «Senhor Doutor preciso da Sara de 8 em 8 horas! Não, não de 4 em 4, não espere, de hora a hora, todas as horas e que seja agora e que sejas agora…»

Estava aflito, agarrado ao vício de te ter e ao medo do que não poderia ser sem ti. Minha bengala deixar-te neste momento é reaprender a andar. Sozinho, passo a passo, porque a aflição já lá vai e algures no caminho estará a capa que me permitirá voar.

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