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bebedeira

Os shots são a ejaculação precoce da bebedeira. O prazer que retiras é pouco ou nenhum e quando dás por ela já atingiste o objectivo final de ficar bêbado e não te controlas. Deixas-te vir e deixas-te cair.

Para beber tem de haver arte, a mesma arte que é necessária para fazer amor. Ignorar isso numa noite de copos é como esquecer os preliminares numa noite de sexo. Ninguém quer sair à noite com um tipo que bebe dois copos e começa a dançar a macarena no topo da mesa do bar até se extravasar para cima das suecas que estava a tentar “bater-couro” – ouviste Filipe? Deixando-nos com o peso-morto do seu corpo, fraco em movimentos, sem sequer termos aquecido para o resto da noite.

Muitas mulheres se queixam que os homens têm ejaculação precoce, mas não vejo ninguém a reclamar que os seus amigos têm bebedeira precoce, porém atingir o clímax demasiado cedo na bebedeira é tão ou mais grave que atingi-lo durante o sexo.

Ambas acontecem pela mesma razão, que é esta, meus amigos: falta de treino! – Digo isto com total desconhecimento empírico, ou como se diz na gíria: sou o maior! Uma pessoa que já não sai de copos há muito tempo vai com demasiada sede e quer tudo de uma só vez acabando por ceder à tentação amadora dos shots, resultado, ainda não são 22h30 e já não se aguenta em pé. Lá está, a mesma coisa que o homem que já não vê uma mulher há demasiado tempo, ainda não são 22h30 e já não se aguenta em pé.

Todo o precoce tem pedidos de desculpa e choradinhos prometendo para a próxima ser melhor: Porque sabes querida lá no trabalho tem sido muito complicado, o chefe doido da cabeça como é, tem pedidos impossíveis, impensáveis e irrealizáveis até, e toda a responsabilidade me cai sobre os ombros, não é que eu te esteja a usar como tudo de escape, sabes que eu te adoro, és o pilar que me segura quando tudo o resto me falha, por favor não te zangues, vamos ficar aqui o resto da noite abraçadinhos, só tu e eu como nos bons velhos tempos. Amo-te caipirinha.

A verdade é que o precoce alcoólico tal como o sexual terminam da mesma maneira, expelindo do corpo alguma coisa demasiado cedo, ou meita ou vómito, ambos nojentos.

Há algo poético nas maratonas de copos que não existe nos sprints dos shots, por cada gole bem saboreado de vinho, cerveja, gin, etc. sente-se o raciocínio evadir-se do nosso corpo para dar lugar a impulsos primários de libertação e reacções bem menos pensadas.

Para ajudar os mais vorazes decidi criar um manual de normas de como ficar bêbedo com classe.

  1. Os preliminares. Tudo começa com o jantar regado por um bom vinho que acompanhe o paladar. Às tantas damos conta que já bebemos metade da colheita do Douro e ainda só vamos nos aperitivos. Enchemos a barriga, pedimos um digestivo e com ele é oferecida a conta, irritamo-nos por nunca a termos pedido e dizemos que já foi tudo pago em tolerância às graçolas do empregado enquanto mandamos uma cadeira ao ar, para espanto dos comensais, e saímos porta fora.
  2. O bar. Irritados pelo desrespeito à básica condição humana que é o direito a beber e encher a barriga sem pagar a conta, começamos o assalto ao gin-tónico. Vai-se à casa de banho e repara-se que é preciso encostar a cabeça na parede enquanto se urina. Protesta-se. Afinal de contas este desnível nas instalações sanitárias é inaceitável. Sinal de que está na hora de ir para uma discoteca. Antes de sairmos, tempo ainda para uma breve contemplação ao espelho, nunca nos sentimos tão atraentes, capazes de ombrear com Brad Pitt, apesar das olheiras parecerem termos andado a soldar durante toda a semana. Saímos porta fora como quem desfila em câmara lenta deixando a convenção aturdida e a conta por pagar.
  3. A discoteca. Neste momento estamos cheios de amor para dar, os percalços anteriores já foram esquecidos e estamos capazes de acasalar com qualquer tipo de mulher, mesmo que seja um cruzamento entre a Lili Caneças a Paula Bobone e uma lata de anchovas. A urgência na entrega de amor é mal interpretado pelas eleitas e às 5 da manhã já acumulamos mais pares de estados do que cervejas. Apesar da extrema diligência na entrega do amor, somos expulsos por desacato e nem sequer nos dão tempo para pagar a conta.
  4. Regresso a casa. Abraçamo-nos a ela, porque afinal de contas é a nossa mais-que-tudo, a única capaz de nos auxiliar nos momentos difíceis, pedimos que perdoe todos os nossos deslizes e antes mesmo de adormecermos a seus pés, juramos fidelidade à sanita, esquecendo-nos de puxar o autoclismo.
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