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ENTREVISTADOR

Boa noite. Hoje temos connosco o homem que sofre de uma terrível patologia. Geraldo como é que é isso de não conseguir resumir os seus problemas em publicações do facebook?

GERALDO

Boa noite. É terrível como disse, eu desde pequeno que sofro de uma grande incapacidade de sintetizar e isso veio-se agravar com o invento das redes sociais.

ENTREVISTADOR

Em que sentido?

GERALDO

Por exemplo, todos os meus amigos usam o facebook para descreverem os seus problemas, angústias e sofrimentos, alguns até usam o twitter, o que para mim seria impensável, 140 caracteres nem dá para um suspiro muito menos para um lamento. Agora repare bem na minha desgraça, quem não consegue resumir problemas também não poderá usufruir de resumidas soluções, em forma de carinhosos likes.

Enquanto os meus amigos publicam as suas desgraças diárias recebendo em troca sinceros e bonitos comentários de compaixão do género «então querido o que é que se passa?», «Não fiques assim, eles não merecem!» ou até mesmo «Seja lá o que for, podes contar sempre comigo!»… Eu começo a ser olhado de lado, por não publicar angústias toda a gente pensa que eu sou um boa-vida sem problemas. Imagine até que esta semana só tive 8 convites para jogar Candy Crush Saga.

ENTREVISTADOR

Então mas o Geraldo, nem um simples: estou farto desta merda toda! Consegue proferir?

GERALDO

Não, repare, a merda é tão vasta que ainda não me consegui fartar da sua globalidade. Há partes da merda bastante interessantes e muitas, para mim, desconhecidas, para poder dizer alarvemente que estou farto da merda toda. A minha sina é esta: ser incapaz de resumir.

ENTREVISTADOR

Estou a ver. E se não consegue usar as redes sociais, onde vai para expor os seus problemas?

GERALDO

Os meus problemas não são sintetizados ou alvos de generalizações. Já tentei confessionários, mas não os suporto, o padre guarda todas as minhas confissões apenas para si. Eu quero ir de megafone dizer ao mundo o que me aflige. Não há uma única casa de banho pública onde não escreva «Estou farto de algumas partes da merda! Se quiser saber mais, da minha triste vida, por favor contacte 963850****»

Também não gosto de ir a funerais porque toda atenção é direccionada para o falecido. E eu? Que já há tantos anos que morri para a vida! Onde é que anda o meu grupo de velhas a cuspirem clichés e frases feitas de pena e compaixão? Eu também sou filho de Deus.

ENTREVISTADOR

É de facto um drama. Tomam-no por ufano.

GERALDO

Exacto. O meu sonho era todos os dias que saio de casa e ter um grupo de 4 velhas vestidas de preto que me acompanhariam, onde quer que fosse, por luto e tristeza «Coitadinho do menino que está tão tristinho.» Por todo o lado as pessoas olhar-me-iam com ar condescendente, comentando, «Ali vai o homem com problemas tão grandes que não se conseguem reduzir em publicações do facebook sendo por isso impossibilitado de auferir de generosas doses de compaixão em forma de likes. Coitadinho. Vamos fazer um minuto de silêncio.»

ENTREVISTADOR

Um drama. Por hoje é tudo, amanhã estaremos de volta com a desgraça de um homem que se sente ostracizado por não conseguir tirar selfies. Boa noite.

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