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Há cerca de 3 meses que não escrevo e nunca pensei que fosse tão difícil voltar a fazê-lo. Há cerca de 5 meses que não faço stand up e ainda não tenho data de retorno. Na incessante busca de ideias descubro as mais variadas razões para a inacção. Fosse eu tão bom arranjar ideias como sou arranjar desculpas e já teria escrito um livro, realizado um filme ou até mesmo ido para a cama com todas as modelos da Victoria Secret. E quem diz cama, diz sofá, cozinha ou vão de escada, até porque eu não sou um rapaz esquisito no que toca a fazer amor com belas e não roliças modelos.

À passagem do tempo maior se torna o desfasamento dos sonhos com a realidade. Sinto-me Walter Mitty a personagem de um irremediável sonhador que parece ter sido baseado em mim, ou em qualquer outro que sonha acordado, mas que na realidade nem um simples «wink» consegue fazer. Ainda que possa dizer que uma desculpa não é mais que uma ideia que pretende desresponsabilizar. A verdade é que este texto já não é comédia é uma amontoado de letras.

Lembro-me do «Movimento Perpétuo Associativo» dos Deolinda, a constante esquizofrenia entre o agora sim e o agora não. «Agora sim, damos a volta a isto! (…) Agora não, que me dói a barriga… Agora não, dizem que vai chover… Agora não, que joga o Benfica…» É tudo muito bonito, mas eu sou do Sporting e ainda assim produção teima em não principiar.

Mas vamos por partes, eu não tenho culpa, ela nunca é nossa… Tudo começou em Fevereiro no dia dos namorados, o dia em que toda a gente tem alguma coisa. Uns têm namorados/as, outros têm ligeiras depressões que tentam compensar com excessivas doses de optimismo e há ainda os que têm namorados/as que lhes causam ligeiras depressões que tentam compensar com excessivas doses de optimismo.

Como é evidente eu pertencia ao segundo grupo, ano após ano já vem sendo uma tradição – lá está, a ligeira depressão – mas nessa tarde saí à rua e estava bem-disposto – sinal claro de excessivo optimismo. A tarde acontecia sem elementos de anormalidade, desejei um bom dia à minha vizinha e não consegui retirar os olhos do seu admirável buço, não que tivesse diminuído de volume, mas naquela tarde encontrava-se estranhamente bem penteado. Talvez por ser dia dos namorados, quem sabe, até uma senhora de 70 anos se resolve aprimorar mais um pouco nesse dia. Lembrei-me que essa poderia ser a metáfora ideal para o dia dos namorados, sair à rua de buço penteado. No fundo é o que todos nós fazemos, não erradicamos os defeitos mas tentamos que pareçam mais bonitos.

Olhei para ela e vi-me reflectido. Naquela tarde, tal como muita boa gente, tinha saído à rua de buço penteado. Achei bonito e pensei que nesse dia já tinha assunto para escrever, algo que andaria à volta da opressão dos namorados, da libertação dos solteiros, da depressão do querer-e-não-ter e de que no fundo não passamos de animais que saem à rua de buço penteado.

Estava o mote lançado e eis-se-não-quanto, a caminho de casa, no fim de uma bela tarde que acabou em noite de copos e queixumes de circunstância, a cereja no topo do bolo, a pastilha no fundo do epá, o cigarro depois do café, aqui o escriba avista com os seus olhos de lince míopes o maior exemplar da espécie masculina. Peço a vossa atenção por favor, tratava-se, obviamente, de um marroquino a vender flores… Mas atenção, este não era um marroquino qualquer! Este ser bípede encontrava-se no meio de uma praça bastante conhecida em Lisboa (a qual permanecerá anónima por respeito à dita) com rosas numa mão e a pila na outra a urinar para uma flor maior, vulgarmente conhecida por árvore.

Ora escusado será dizer os inúmeros traços de poesia e simbolismo desta imagem. Todo o Homem por cada gesto de romantismo que tem numa mão, na outra tem a pila. Óbvio. Aquilo era homem que sabia de cor Romeu e Julieta, todo ele era poesia, sou capaz de jurar que até as gotinhas do seu chichi dissertavam sonetos capazes de humedecer as mais desidratadas vaginas.

Nisto cria-se um bloqueio existencial aqui do escriba, toda uma panóplia de ambiguidades do ser humano que o impedem de tomar acção. Isso ou teve um mês inteiro agarrado à pila e sem dar por ela chega a Março.

Com Março, o Carnaval. Essa brincadeira terrena de libertação causada por um disfarce que se usa durante 3 dias. É com indisfarçada excitação que todos os anos recebo o Carnaval, só lamento que sejam apenas 3 dias. Trata-se da altura do ano em que se torna mais fácil distinguir as pessoas que eu não quero conhecer. Por isso mesmo deveria durar 365 dias por ano. Apesar das incalculáveis virtudes do carnaval, considero de extremo mau gosto que tantas crianças brinquem com pistolas de água. Neste mundo onde tanta gente morre à sede. Sinceramente, que usem pistolas verdadeiras e matem quem tem sede. Enfim, já ninguém se preocupa com nada nesta sociedade.

É com curiosidade que observo a preocupação com os disfarces nesta época. Para mim, o disfarce resume-se à precoce desistência de procurar meias com par. A vida são 2 dias e o carnaval são 3. As frases feitas preenchem, mas não satisfazem e com isto chega Abril.

Abril, mês da revolução. E se era para haver uma revolução só poderia ser em Abril. Depois da lamechice das rosas em Fevereiro e da palhaçada do carnaval em Março também eu ia gostar de por tudo de pantanas.

Antes mesmo da revolução não nos podemos esquecer daquela coisa da páscoa. O que dizer da páscoa que já não foi dito? Padres ou sacerdotes que vêem a nossa casa para beijarmos o menino na cruz e levar um envelope de dinheiro? Beijar o menino e envelope de dinheiro?

Beijar o menino e envelope de dinheiro?

BEIJAR MENINO? ENVELOPE DINHEIRO?

BEIJAR? MENINO? ENVELOPE? DINHEIRO?

BEIJAR DINHEIRO?

MENINO DINHEIRO?

DINHEIRO DO MENINO?

O MENINO QUER DINHEIRO?

ORA FODA-SE!

Chego assim ao fim, já não tenho ideias, apenas desculpas. Peço-vos desculpa por isso…

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