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Trabalhei a semana inteira para chegar a este momento e rezo ao Deus do acaso que me surpreenda com um destino diferente dos habituais remorsos pós-masturbação na solidão do meu quarto às 5h da manhã.

Por isso tomo banho, aparo a barba e ponho tanto perfume que o próprio perfume precisa de pôr um pouco de mim para cheirar bem. Visto-me cobrindo a insegurança e escolho os boxers mais sexys porque a esperança é a última a morrer. Preciso rapidamente de ser bem-sucedido. Acabei com a minha namorada e preciso de lhe fazer inveja.

É sábado à noite e encontro-me à entrada de um magnífico estabelecimento de discriminação nocturna. Discriminação? Perdão, queria dizer diversão. Não há nada mais divertido do que pagar a dobrar o preço das meninas para entrar numa discoteca.

A espera na fila deixa-me impaciente, corre-me nas veias optimismo e ansiedade. O porteiro que ao longe nos parece um portento de masculinidade estranhamente tece considerações sobre os nossos trajes ao nível de um fashion designer que passa os dias a ler a Vogue. São homens armários com uma musculatura invejável que ainda debitam detalhes sobre o mundo da moda com uma atenção ao detalhe surpreendente. «Se queres entrar aconselho-te a ir a casa mudar de calças e nem penses que vens para aqui com ténis e t-shirt de basquetebol, aqui joga-se de polo e mocassins.» Os porteiros são aqueles seres que dividem o tempo entre ir ao ginásio e ler revistas de moda. Parece-me que são armários que ainda não saíram do armário e tecem considerações sobre o nosso armário. Por vezes penso que para entrar numa discoteca e sacar uma gaja tenho antes de ser sodomizado pelo porteiro. Soubesse eu que isso me garantiria resultados não pensaria duas vezes.

Acabo de entrar, mas sinto que continuo na fila de espera para ser tudo aquilo que ainda não sou. Espero por aquela que acaba de sair da casa de banho, ou a outra que dança feito louca, e esta aqui junto ao balcão que ainda não percebeu que estou farto de lhe mandar olhares que mendigam por atenção.

Estou pronto para a acção, vim protegido, já não me sentia tão preparado desde o dia que levava guarda-chuva estando apenas o tempo nublado. As hipóteses para esta noite são quase nulas, mas ainda assim mais vale prevenir. Como é que isto se faz? Isto de se interagir com meninas quando quase nem conseguimos ouvir a própria voz. Pareço um totó, já não me sentia tão totó desde o dia em que levava guarda-chuva e ainda mal pingava.

O homem cria a ilusão que vai à caça mas já há muito tempo que é a presa. Posso-te conhecer? Poder até podia, mas já te endeusei de tal maneira que só de pensar em falar tenho caibras vocais e paralisias cerebrais. Posso-te conhecer e fazer uma série de perguntas que nos vão entediar a noite até ao tutano? Como é que te chamas? O que é que fazes? Estudas ou trabalhas? És de onde? Estás em Lisboa há muito tempo? E gostas? Tens um cigarro? Então e a seguir vais para onde? Olha, dás-me o teu número? Ok, então vá, fica bem, beijo.

Está claro que não sou nenhum James Bond. Vodka Martini, agitado, não mexido? Eu venho lá do fundo e já ao longe percebeste que te quero comer, agora é só questão de falarmos um bocadinho para tentar fazer este flirt menos penoso. Quero-te comer de uma ponta à outra mesmo não sendo antropófago.

Não percebo porque não me dás valor, já te ofereci o meu cigarro, a minha bebida e a minha dignidade. Não tenho mais nada para oferecer, agora só vendo. Vendo-te princípios em troca de atenção. Enfim, eu também já não quero mulheres que precisam que os homens as conquistem, agora só quero mulheres que gostem mesmo de sexo.

Esta parece-me bem. É loira. Eu gosto de loiras mas a partir de um certo peso sou daltónico. Acho que não há maior desperdício de tempo do que uma gorda ir a uma discoteca onde os homens não têm bebidas à pala. Mas ela tem corpo nota 10, ainda assim sinto-me bipolar desde que a conheci. O seu corpo diz-me que sim, mas a sua cabeça diz-me que não. Por favor pára de falar ou vou-me embora.

Hoje saí de casa para fazer o que realmente importa na sociedade, parecer bem em salas escuras com luzes psicadélicas. Que pena me ter esquecido do terço que brilha no escuro.

Sempre que estou num bar e vou à casa de banho gosto de piscar o olho às raparigas. Como quem diz: vou ali aquela sala tocar no meu pénis. É bonito mas com resultados nulos, está claro que nunca deveria ter vindo a este bar, o único bar que eu gostava de entrar todos os dias era na Bar Refaeli.

Nem tudo era mau, o ambiente estava mais saudável que o costume, desta vez não havia presenças de nenhum ex-concorrente de um reality show qualquer.

Ali ao meu lado estava a minha concorrência, o pior dos meus pesadelos, um exemplo de masculinidade que me colocava na penumbra. Costumam dizer que atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher. E lá estava ela, como é óbvio vinha atrás, tinha demorado mais tempo a vestir-se.

Espero nunca na minha vida encontrar uma mulher perfeita, a perfeição a toda a hora rapidamente se torna aborrecida e previsível. Nada, nem um defeitozinho para concertar, o mais pequeno que seja para contrariar ou discutir. Tudo perfeito. Quem quer a perfeição quando pode ter a imperfeição perfeita.

Percebi finalmente como é que se fazem engates na noite, primeiro trocam-se olhares, depois trocam-se números de telemóvel e por fim trocam-se doenças venéreas.

É isto? Porra, ainda não fui além da troca de olhares ainda por cima com uma estrábica. Tinha os olhos tão tortos como a minha espinha dorsal. Não sou homem de verticalidade, vendo-me por pouco, neste momento bastaria uma simples troca de doenças venéreas e seria um homem feliz. Mas elas não querem, hoje em dia até para se ter doenças temos de pagar e não é barato apanhar sífilis, pelo menos 25€ no Cais do Sodré.

Sinto-me velho para aqui, sei que não é verdade mas sinto que a idade somada de todas elas dá metade da minha. Já não me sentia tão adulto desde o dia em que fiz o cartão de descontos do Continente. O que é isto? Que ambiente é este? Já não me sentia assim tão aselha desde o dia em demorei mais de meia hora para abrir o saco da fruta do Pingo Doce. Ando a passar demasiado tempo em supermercados.

Passei a noite a encher o copo de expectativas até entornar desilusões. Dói-me o corpo farto de estar em cima dos meus ossos. Chega, vou-me embora. O prazer de aqui estar esfuma-se nas baforadas do meu cigarro.

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