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Kandariya Mahadeva Temple

Meu caro leitor prepare-se porque vou-lhe apresentar a história de Custódio Dias. Não, não se trata da história de Márcio Antunes nem a de Manuel Ribeiro também elas bastante interessantes, mas como precisava de um nome para a personagem decidi optar por Custódio Dias, que é daqueles nomes foleiró-artísticos, mas ainda assim liricamente aceitáveis.

Custódio, o Dias ironicamente nasceu à noite, foi um acontecimento que o marcou para a vida porque até então não existia. Custódio não era uma criança normal, era dotado de uma consciência e sentido estético absolutamente sobre-humanos, foi até a hoje o único bebé que após o parto não chorou de dor, mas apenas pela enorme vergonha de se apresentar ao mundo de pilinha à mostra. Durante grande parte da sua infância culpabilizou a mãe pelo sucedido, deixando-o sair do útero naqueles preparos. «É que nem uns moccasins e um scarf me colocaram!» Dizia irritadíssimo.

Desde a sua infância era notório o fascínio que tinha pela roupa, sonhava ser fashion designer, mas a ironia do destino fê-lo vir ao mundo inapto para a costura, as suas mãos rudes contrastavam com a delicadeza do seu bom gosto. Tornou-se num adolescente reprimido pela impossibilidade de criar os modelitos que desejava. Ainda assim, num acto arrojado decide criar um nome artístico, trocando o «S» por um «Z» e chamar-se pomposamente Custódio Diaz, mas era mais conhecido pelos amigos na aldeia como «O Cérci». O Cérci não tinha amigos. Custódio Dias estava preso numa não existência e Custódio Diaz dedicava-se exclusivamente à escultura.

Tornou-se na ovelha negra da escultura apenas porque nunca conseguiu perceber a fixação dos seus pares em esculpir obras com pouca roupa. Apesar de ser o mais criativo e talentoso escultor da sua geração, nunca ficou na história porque sempre se recusou a esculpir homens nus, cavalos e mulheres com mamas à mostra. Ao invés esculpia belíssimos e originais modelitos na esperança de poder um dia vestir todas as estátuas despidas que via e que o deixavam possesso. «É que já não se pode com tanta carne à mostra, ou mármore ou lá o que é!» Dizia irritado.

Para Custódio a insistência em estátuas de cavalos e gajas com mamas à mostra era no mínimo bizarro. O que é compreensível são duas coisas que no seu conjunto coabitam de forma muito estranha. Cavalos e mulheres, enfim, e ainda há quem diga que a Cicciolina é porca, não é, ela é apenas amante de arte, junta os dois mundos da melhor maneira.

beijo_rodin

o pensador rodin

Pensava na solidão como uma dádiva dos deuses, nunca namorou e considerava Auguste Rodin um idiota como consta na citação do próprio. «Rodin, Rodin, Rodin… Oh Auguste Rodin já não nos bastava a tua estátua O beijo ser um atentado ao pudor, agora ainda tenho de levar com O pensador e também ele despido? É que já não há paciência, quer dizer um beijo tudo bem é insolente estarem despidos mas pelo menos é sinal que vão para o truca-truca. Agora o pensador Rodin? Mas desde quando é que um gajo para pensar precisa de se despir?»

David_Michelangelo

A escultura, para Custódio, não era o despir de preconceitos, mas sim símbolo do demo que espalhava as suas marcas libidinosas desde o início dos tempos e acreditava que Deus o trouxe ao mundo incumbido com a árdua tarefa de cobrir toda essa pouca vergonha. Nos tempos áureos da sua juventude era um estudante exemplar, critico, com uma educação e retórica imbatível ficou conhecido por defender a tese «O David do Miguel Ângelo era rabeta», Fundamentando-a a sua metodologia em 5 pontos base, a saber: o penteado ridículo, a inclinação da anca, a mão esquerda que segura o paninho, a ausência de pêlos no peito e no rabo, sinal de que já na altura fazia depilação a laser e por último o seu olhar receoso, não por ir enfrentar Golias, mas por saber que está nu e a qualquer momento pode ser penetrado por um pénis gigante.

David-Michelangelo-detail

Acontecimento que originou a sua expulsão e consequente afastamento sendo desacreditado por todo o mundo da escultura. Refugia-se na sua aldeia, numa casa decrépita onde colecciona tipos de pedra e cortinados. Asmático e com a sua saúde a parecer-se cada vez mais com estado de sua casa, nunca teve um animal de estimação, apenas ódios. O maior deles foi a Fernando Botero por todas as suas esculturas de mulheres nuas e ainda por cima gordas, o que era uma afronta para Custódio que sempre quis fazer roupas para modelos magras. Mas a pior era sem dúvida a mulher a cavalo, ambos gordos, ambos sem roupa, ambos o símbolo do demo para Custódio. Dizia que Botero tinha um fetiche por gordas e que passava a vida a ver porno de Big Beautiful Women.

Botero-Pietrasanta-mujer a caballo

Tradicionalmente o objectivo da escultura sempre foi representar o corpo humano, mas Custódio preferia imaginar um corpo representado com um belo traje, e ficava doido sempre que via a Vénus de Milo, sem sutiã nem nada, é certo que também não tem braços, se calhar quando perdeu os braços também perdeu o under bra, mas ainda assim não é desculpa.

VenusMilo

Curiosamente o seu maior herói não era um escultor, mas sim o primeiro imperador da China Qin Shin Huang que mandou construir a magnifica obra o exército de Terracota. Mais de 8 mil estátuas todas vestidinhas, ali prontas para proteger o imperador. «Não há cá nus, não há cá mariquices na arte da China». Proferia entusiasmado e com desgosto de serem poucos os bons exemplos.

soldados-de-terracota

Não podia suportar a pouca vergonha que era o grupo de monumentos de Khajuraho com as suas esculturas eróticas, aquilo é Kamasutra em 3D ou será em braile?

Kandariya Mahadeva Temple4

O grande Custódio Diaz, originalmente baptizado de Custódio Dias e conhecido na aldeia como «O cérci» acaba por ensandecer nos seus últimos dias de vida refém de um anacronismo histórico, pensando falar com Auguste Rodin e ainda criticando Fernando Botero tudo numa só vida. Dias, que nasceu à noite acaba por morrer ironicamente debaixo da estátua The Daydream enquanto tentava vestir as cinco mulheres que dançavam à sua volta. Nunca tocou numa mulher, e tinha amor a todas as pedras menos à do coração.

daydream

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