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Lady Haya

Se queremos mudar alguma coisa nesta sociedade teremos de mudar o paradigma em que vivemos. Na semana passada tirei uns dias de férias e passei por Puerto Banus, um local conhecido pela frequente passagem de milionários, onde é comum avistar grandes carros e iates. Fui pela curiosidade de conhecer um lugar que leva tanta gente com dinheirinho a frequentá-lo e por ser masoquista, apesar de ser português ainda não me sentia suficientemente pobre. Ainda assim o que presenciei foi mais intrigante, para além das dezenas de Ferraris, Porches, Bentleys e pelo menos um Rolls Royce, havia centenas de curiosos a tirarem fotos a estes veículos de locomoção restritos apenas a algumas pessoas. Por cada bomba de 4 rodas havia uma dezena de curiosos com máquinas fotográficas apontadas. Mas o auge foi sem dúvida a atracagem de um dos maiores super iates da zona. Já se via a vir ao fundo, magnifico iate de dois andares, com umas letras a dizer Lady Haya. Quanto mais se aproximava do porto mais pessoas se concentravam à sua espera, nessa altura cerca de uma centena, tudo com objectivas apontadas, eram Iphones, Nikons e Canons, tudo para registar o momento em que o super iate Lady Haya atracava. Virava alguns metros a bombordo e as Canons disparavam, tornava a virar uns metros a estibordo e era a vez das Nikkons, assim se fazia e documentava a valsa do atrancamento do iate.

Comecei por questionar se haveria alguém famoso a bordo, talvez a equipa do Real Madrid ou os Beatles ressuscitados, só mais tarde percebi que se tratava de mais um dos super iates pertencentes a Abdullah bin Abdulaziz bin Abdulrahman bin Faisal bin Turki bin Abdullah bin Muhammad bin Saud, rei da Arábia Saudita, parece que decidiu comprar um iate do tamanho do nome. No entanto, no barco vinha apenas a equipa de marinheiros. Estava claro então que a atenção das pessoas não era para uma pessoa em concreto, mas para o veículo em si. Tal como houvera acontecido com os carros estacionados. Fez-me questionar o porquê de tanta azáfama popular em relação a algo que apenas o privilégio de ser rico pode comprar.

ferrari puerto banus

Adoramos a ostentação de riqueza e esse é um dos maiores problemas da nossa sociedade. Admiramos de tal maneira a riqueza dos outros que até tentamos levar um bocadinho dela para casa em forma de fotografia. De forma a mostrar aos amigos que estivemos na presença de uma coisa que é um privilégio adquirir. No fundo ser rico compensa em duas vertentes base. Na vertente óbvia de, sendo rico posso adquirir aquilo que mais me dá prazer sem olhar a orçamento e na vertente social, além de ter o que quero, ainda sou admirado pelo comum dos mortais por possuir algo que eles não podem adquirir. O que, no mundo da fantasia poderia eventualmente fazer todo o sentido, mas no mundo em que vivemos, endeusar desta forma a riqueza dos outros é apenas estupidez. Socialmente, a ostentação de riqueza deveria ser severamente criticada ao nível do nojo e do repúdio.

Já dizia Martin Luther King, «O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons» Também aqui se reflecte o mesmo, não está em causa se os proprietários dos iates e carros desportivos (daqueles que se usam para fazer desporto) contribuem todos os anos para a caridade e até têm uma fundação XPTO (linda expressão) que faz um trabalho magnífico em Burkina Faso. Se o fazem ou não, não sei, não os podemos obrigar, mas (todos concordamos) que seria bom que o fizessem. O que está em causa é o «silêncio dos bons», ou seja, o que me preocupa não é o barulho do escape de relantin dos que nadam em moedinhas. É o silêncio dos pobretanas. Se em vez de tirarem fotografias fossem completamente indiferentes à riqueza dos demais, o paradigma começaria a mudar. E se começasse-mos a admirar da mesma maneira quem contribui para os mais desfavorecidos, ao ponto de querermos tirar fotos com eles, então aí a sociedade mudaria.

Claro que quem doa para a caridade nem sempre tem o mesmo estilo de bimbo que muitos donos de Ferrari e Porches, nem sequer têm uma mulher com a mesma quantidade de silicone e por isso são menos apelativos para se tirarem fotos com eles. Como é que poderíamos resolver isso? Talvez tentando educar os bimbos ricos sem que eles percebam disso.

Falaríamos com as melhores empresas de iates talvez a Lurssen e a Blohm + Voss e também com a Ferrari, Porsche, Bentley, Roll Royce, etc. Com o objectivo de desenvolver o melhor e mais atractivo super iate e carro desportivo (nos quais sem mete combustível para fazer desporto) mas, e isto seria um requisito essencial, que apenas pudesse ser adquirido por quem tivesse contribuído com pelo menos 1 milhão de euros para a ajuda humanitária e/ou investigação cientifica. Desta forma, mataríamos 2 coelhos de uma só cajadada. Os bimbos ricos passariam a doar parte do seu dinheiro de forma a poderem adquirir o tão desejado iate e carro desportivo e o comum dos mortais viciados em fotografia continuariam a admirar os melhores iates e carros desportivos, mas desta vez estariam ao mesmo a tempo a admirar também quem mais ajuda os desfavorecidos e realmente merece ser admirado.

No fundo deveria haver uma nova classe de produtos de luxo, topo de gama, ainda mais selectiva, para os quais ter dinheiro não seria suficiente para os adquirir, seria necessário também a boa conduta como cidadão, as boas acções e as boas doações. Imaginem a Hermès, Chanel, Louis Vitton, Christian Dior, Ferragamo, Versace, Prada, Fendi, Giorgio Armani, Ermenegildo Zegna, etc, (etc, porque apenas pesquisei os top 10) com uma nova classe de produtos com melhor qualidade, melhor design, mas bonito e EXCLUSIVO, palavra que seduz qualquer milionário. Sendo que, para adquirir esta nova série de artigos, chamada de produtos de luxxxo, que é um luxo ainda mais sexy. Os milionário/bilionários teriam da abdicar de uma grande parte da sua riqueza, caminhando assim para uma sociedade bem melhor e com mais máquinas fotográficas apontadas a quem merece.

«Estás a ver a foto deste Ferrari exclusivo que vi em Puerto Banus? O seu dono já contribui com mais de 1 milhão de euros para a caridade. É um espectáculo!»

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One thought on “Afinal adoramos a ostentação de riqueza

  1. Embora isto seja um texto de 2013, não posso deixar de me manifestar.
    Alguém que faz esta análise só pode ser invejoso e complexado e, consequentemente, muito mais fútil e vazio que muitas dessas pessoas que critica de forma injusta. A meu ver, criticar alguém com base apenas nos seus bens materiais é completamente preconceituoso.
    Toda a gente tem paixões, gostos, objectivos, uns maiores, outros menores, uns mais caros, outros mais baratos. Sei, por experiência própria, que muitos proprietários de carros e outros bens de luxo não os adquirem novos, e muito menos com a facilidade que este texto faz espelhar. Eu venho de origens humildes, dum país de terceiro mundo, e tenho uma paixão infinita por carros. Estudei, trabalhei e trabalho na maioria do tempo em condições muito mais difíceis do que muita gente que me critica quando me vê passar. Ando nos piores sítios deste planeta, porque percebi que para ter o que quero e muitos poucos têm, teria que me sujeitar ao que muito poucos se sujeitam. E tenho a minha recompensa. E não posso admitir que alguém, por pura inveja, me critique quando decido ir dar uma volta no meu Porsche ou no meu Ferrari ou em qualquer um dos meus carros, que tanto me custaram a adquirir e que tanto me custam a manter. São opções de vida. Mal seria se quando fosse adquirir um carro me exigissem doações milionárias.
    Este texto é ridículo, mesquinho, invejoso, pequeno, pobre. Não me surpreende nada ter sido escrito por um português (embora eu tenha também nacionalidade portuguesa). Tens 2 opções na vida: ou vives assim, como um invejoso reles; ou defines os teus objectivos, sejam eles quais forem, e vives e morres a tentar realizá-los.
    Espero que de 2013 até hoje tenhas evoluído e aprendido que não se julga ninguém pelo que essa pessoa tem ou deixa de ter. O valor de um ser humano não está no bolso, nem na garagem, nem na conta bancária.

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