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limpa_metais_carre_1_1176206449«O homem está a apaixonar-se. Nota-se que está a perder a alegria de viver.»

Miguel Esteves Cardoso, A Vida Inteira, 1995

Ora vamos lá outra vez. Gostar de alguém é mau porque no fundo é mostrar o nosso ponto fraco. Não é por nada que quando gostamos de alguém dizemos que temos um «fraquinho». Temos um fraquinho pela Joana, temos um fraquinho pela Catarina. É o nosso ponto fraco, a nossa fraqueza exposta! E quando ela se aproxima estremecemos! Ela é tão gira que nem me consigo controlar, tem um olhos tão lindos que não me consigo concentrar, tem um sorriso tão bonito que pensar se torna impossível.

Gostar de alguém na adolescência é pior do que andar com a mala aberta na escola. É motivo de gozo e as pessoas chegam a roubar coisas do seu interior – no caso da mochila são bens materiais, no coração são bens sentimentais. Por isso é que temos tanto medo de amar, ao abrir o coração ficamos expostos a que roubem parte do seu conteúdo. Correndo o risco de nunca mais o fecharmos da mesma maneira, como se falta-se uma peça essencial ao seu funcionamento.

Admitir que gostamos de alguém, de alguma coisa ou de fazer algo no futuro é sempre admitir uma carência. Um vazio. Dizer «Eu gostava de ser isto e aquilo e de trabalhar com» acabará invariavelmente com a pergunta «Mas porque é que não és?» De nada vale que «estejas a reunir esforços para» ou «estejas a trabalhar efectivamente no sentido de».

Como ainda não és, não o podes admitir, sob consequência de te tornares imediatamente mais fraco que a outra pessoa. No fundo sempre que estejas com uma pessoa que não tem Nada mas não queira mais nada essa pessoa parecerá infinitamente maior do que uma pessoa que tem alguma coisa mas que ainda quer mais e ainda não tem.

Por isso é que as raparigas gostam sempre dos rebeldes, porque a sua atitude de «Eu não me importo com nada. Eu não quero saber de nada. Eu faço aquilo que quero.» Faz com que eles pareçam ser muito mais fortes do que efectivamente são. Fá-los parecer completos! Coisa que uma pessoa que admite gostar de alguém será sempre incompleta. Porque lhe faltará sempre algo. Falta a pessoa que deseja, falta realizar o sonho, etc.

«A certa altura decidi que mais valia estar sozinho. Nunca na minha vida arranjei tantas namoradas.»

 Miguel Esteves Cardoso, O Amor é fodido, 1994

No fundo dizer eu gosto de alguém é dizer: eu posso estar bem mas podia estar bem melhor. Enquanto não precisar de ninguém faz a pessoa parecer completa e como tal extremamente atrativa.

Por isso é tão frustrante e ao mesmo tempo tão lógico uma rapariga gostar de um rebelde que não sabe nada, não faz nada, e dá connosco em doidos. Mas o que é que ele tem? Ele não tem nada! Pois não, mas é um Nada que é Tudo. Ele não tem nada. Mas é preferível ser um nada completo do que ter alguma coisa e ser incompleto.

Gostar de alguém é mau já seduzir é importantíssimo. Como a oferta é muito grande tem de haver sedução. E como é que se tem uma pessoa que julga já ter tudo? Através da sedução. Criando uma necessidade que ela julgava não ter.

A arte de bem seduzir é criar uma necessidade quase imperiosa a alguém que julgava ter tudo e agora sem nós parece que já não tem nada. Seduzir é no fundo roubar tudo o que a pessoa tem sem piedade, ao ponto de pensar que sem ti já não tem nada. Seduzir é criar uma ausência, um vazio e uma necessidade. Enquanto gostar de alguém é admitir uma fraqueza. Seduzir é criar-lhe uma. Cria-lhe uma fraqueza e um fraquinho.

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