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O meu avô nunca se preocupou com a indumentária, era um homem trabalhador e estava quase sempre com roupa de trabalho, mas quando chegou a sua hora teve direito ao tradicional fato e gravata, nunca o tinha visto tão bem vestido. Estava elegantíssimo. Mas porque razão vestimos assim os nossos falecidos? Para quê esse trabalho? Acho que nem no próprio casamento usou gravata.

A maioria das pessoas só usa fato e gravata duas vezes na vida. No casamento e no funeral. É curioso vestirmos o mesmo traje para acontecimentos e sentimentos opostos. Ou não serão tão diferentes assim. Casar e falecer? No fundo o casamento é já em si a morte do artista. Hoje casei, e se for fiel como se supõe, acaba de falecer o Don Ruan, o CasaNova, o Conquistador e o Gigolô que há em mim. Mas deixem-me alargar as opções há também quem se vista assim para o casamento do filho. No fundo é apenas solidariedade paterna com o futuro sofrimento do seu rebento.

Casar para mim é uma coisa muito séria, não é todos os dias que se veste fato e gravata. E nós sabemos que uma coisa é séria quando temos de nos vestir assim. Vejam as notícias na TV, por exemplo, se o Rodrigues Guedes de Carvalho viesse de calções e chinelos, aquilo não tinha credibilidade nenhuma. Mas como vem de fato sabemos que é sério, e que o mostram é mesmo o que se passa no país e no mundo e em Barrancos. A minha credibilidade está na roupa que visto. Será que um funeral também deixa de ter credibilidade se o defunto não for de fatinho?

Humm, não sei se bateu mesmo as botas, se as bateu porque é que vem de chinelos..

O meu avô dizia muitas vezes – já podem chamar o alfaiate, está quase a chegar a minha hora. – E a verdade é que assim foi, só tenho pena dele não o ter visto. Era uma fato maravilho e tão bem que lhe ficava. Nunca percebi esta obsessão de irmos bem vestidos no nosso funeral, muitas pessoas durante toda a sua vida nunca se irão vestir tão bem, como na hora da sua morte. Tem de haver uma justificação para isto. A meu ver, no fundo o céu só pode ser uma discoteca onde S. Pedro é porteiro, e todos nós sabemos que a melhor maneira de entrar nas discotecas é estando bem vestidos. Caso contrário S. Pedro pode muito bem dizer com o tom autoritário que caracteriza qualquer porteiro de discoteca: Então você quer entrar e vem assim vestido? Nem gravata? Nem fato? Parece um miserável, vá ali mas é para a porta ao lado, o inferno, lá pode entrar com esses trajes.

Ainda assim tenho esperança que quando chegar a minha hora de ir visitar este porteiro que é São para além de Pedro, me diga o mesmo que me dizem agora quando vou às discotecas. – Epá, agora não podes entrar, isto está com demasiados homens cá dentro. Ainda por cima não trouxeste amigas. Vai-te lá embora, volta lá para a tua vidinha.

De qualquer maneira, quando chegar a minha hora, não quero que me vistam de fato e gravata, não vale a pena entrar nessa discoteca. Deve ser uma seca, não há álcool, não há drogas e toda a gente sabe que as putas estão na porta ao lado.

Uma coisa é certa, nascemos todos nus e morremos todos engravatados, se existe algum sentido na vida ele tem de passar pela Zara.

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