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Para se criar empatia com uma pessoa não é preciso falar, piscar o olho, sorrir ou flertar, basta apenas estar numa fila de espera. Quando duas pessoas desconhecidas têm um problema em comum cria-se de imediato uma empatia entre elas, é como se unissem para derrotar um inimigo comum. Cruzam-se olhares com caras pouco animadoras, trocam-se suspiros e PUMBA! Temos empatia! É a receita.

(Sacanas pá, nunca mais se despacham já estou há mais de uma hora na fila da repartição de finanças, por sorte a rapariga à minha frente é bem gira e as calças justas que traz não lhe poderiam assentar melhor.)

São várias as histórias onde arqui-inimigos se uniram para derrotar um inimigo comum mais forte. E eu gosto de pensar que se o Batman e o Joker se tivessem conhecido numa fila da Segurança Social seriam hoje os melhores amigos, o Inspector Gadget e o Doctor Claw andariam de mãos dadas, e o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira partilhariam casas de diversão nocturna.

Para mim é mais do que óbvio que esses são os melhores sítios para se conhecer uma mulher, a demora nos serviços públicos já fez mais pelos casais portugueses do que os casamentos de Santo António e a tentativa de coito interrompido juntos. Eu já não digo aos meus amigos para me apresentarem as amigas, peço-lhes antes que me digam quando é que elas vão aos correios. (O padre quer-nos unir mas e não consegue evitar os divórcios. A funcionária pública quer nos ver chateados e provoca imensos casamentos.)

Quando uma pessoa sente empatia por outra, quer dizer que percebe o que essa pessoa está a passar, tem a capacidade de se colocar no lugar do outro e daí a acha-lo uma certa piada é um pulo e a partir desse momento, já não se coloca no lugar do outro, mas poderá muito bem vir-se a colocar em cima do outro.

Existe uma certa tensão no ar e cruzam-se olhares tão profundos que dariam conversas de horas, mas aqui as palavras são desnecessárias, o silêncio delas é mais perceptível que qualquer outro som, existe química e não só no papel químico que a gorda da contabilidade teima em virar e revirar e nunca mais se despacha dali.

Ela manda-me um olhar que me tira as calças eu suspiro e desaperto-lhe o soutien. Fazemos sexo ali no meio da fila e ninguém dá por nada. (Estão feito zombies, é um vírus que ataca as pessoas mal entram na repartição de finanças, nós somos os únicos imunes.) Eu venho-me quando ela penteia o cabelo para traz da orelha, ela vem-se quando eu lhe faço um sorriso maroto.

Ainda não troquei uma única palavra com ela, mas já penso em casar, construir uma casa, ter filhos, envelhecer a seu lado, tudo isso enquanto estamos na fila de espera, e eu sei que ela pensa o mesmo.

Olhamos à nossa volta, em todas as direcções, para cantos e recantos tão recônditos que nem os funcionários que lá trabalham há mais de 20 anos sonham que existem. Há quem trabalhe nestes locais há mais de 20 anos, mas eu já passei mais de 10 nas filas de espera e ainda não recebi um único ordenado. No entanto, já me casei, tive filhos e construi uma casa ali junto ao balcão C, ao lado da casa de banho.

Cruzam-se e descruzam-se os braços, olha-se para as mãos, unhas e pés. Pensasse em tudo, a espera já vai tão longa que já me questiono sobre a existência de uma loja de bengalas e andarilhos ali perto, temo que quando sair a minha juventude e mobilidade já não serão a mesma. Entro neto e saio avo, o que é uma chatice, porque logo depois tenho de voltar a entrar para tratar de reforma.

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